No domingo à noite, tive uma das piores experiências culinárias da minha vida. Fui a um restaurante, do tipo fast casual-dining porque tínhamos um voucher de desconto e bem, havíamos passado um longo sábado na França, e estava sem saco para cozinhar. Ingenuidade minha pensar em algo marcante, mas porque um outro do mesmo estilo é tão maravilhosamente bom, e porque já tinha provado a pizza de lá e gostado, resolvi dar uma chance e escolher um prato diferente. Animada com a descrição do menu, fui de Terrina de Frango, que me prometia o mesmo, camarões, azeitonas, tomates, passas, acompanhada de pão caseiro fresco e salada. O namorado foi mais conservador e escolheu lasanha.
As entradas não nos seduziram, e ficamos ali com as nossas bebidas e eu vendo os pratos dispostos no balcão da cozinha, ignorados pelas garçonetes (neste país, servir mesa não é profissão, é bico, muito difícil encontrar um bom serviço), e já imaginei comida fria chegando à nossa mesa. Foi o primeiro sinal de desastre. As nossas refeições vieram, mas vieram assim PELANDO, nunca vi comida tão quente em toda a minha vida. Com uma panca de microondas absurda, de comida de supermercado requentada. Por isso os pratos ali dando bobeira, eles sabem que não vão esfriar. E até o final não esfriaram, tive de assoprar e o namorado idem até a última garfada/colherada. Sabor não senti, e a tal terrina era uma cumbuquinha sem vergonha de molho estilo pomodoro em lata aguado, que continha uns quatro camarõezinhos com gosto de nada, frango fatiado igualmente insosso, umas três azeitonas minúsculas e as passas não percebi, talvez pela temperatura da comida e porque deviam ser igualmente irrisórias. A "salada" eram duas folhas de alface crespa - e murcha - fatiadas com quatro pedaços de pimentão amarelo (odeio pimentão cru), o pão "caseiro", semelhante a uma massinha de pizza, requentado também, pequeno, cortado ao meio. Graças a deus só pagamos por uma refeição, porque a minha não valia nada. Terrível. A lasanha, ele disse, estava "ok", mas nada digno de comentários esfuziantes. Não sobrou clima para a sobremesa, queria sair dali rapidinho. E eles têm a pachorra de cobrar quase 10 libras por um insulto desses, sendo que em gastropubs, por esta quantia, você come um prato decente, feito na hora. Juro que nunca mais, só se for para a pizza e a única opção porque, para melhorar, situa-se num complexo de entretenimento que parece uma nave espacial, onde adolescentes ficam à deriva nos fins de semana. Atmosfera zero.
Essas coisas me traumatizam, e fiquei pensando na comida a segunda-feira inteira. E me sentindo levemente nauseada. Mas passou, e resolvi fazer pão de mel na terça, porque estava com desejo e nunca havia feito. Ficou lindo depois de assado e tinha de esperar esfriar, para passar no banho de chocolate. Enquanto isso, resolvi dar uma exercitada na ergométrica e foi aí que eu mergulhei no inferno. Depois das pedaladas, senti cólicas, dor nas costas e resolvi tomar um banho de banheira para aliviar. Não melhorou, e a náusea retornou amena. Namorado chegou do trabalho e eu não conseguia me concentrar no que ele dizia. Vim para a cama e a febre começou, assim como a aversão a qualquer idéia relacionada à comida. Provei o pão de mel, mas sem entusiasmo, simplesmente não tinha forças para terminar a minha ingrata tarefa. Comi uma fatia de pizza no jantar e lutei a noite inteira contra enjôos, calafrios e tremedeiras.
E tem sido assim até hoje, acamada, zonza, sem apetite. Tirando a pizza da terça-feira, comi um arroz doce com compota de maçã (industrializado), uma tigela de cereal com leite de soja, meio pacotinho de macarrão instantâneo (a única refeição quente e sem gosto em que consegui pensar) e meia-fatia de pizza ontem também. De resto, são gomos de tangerina, kiwi e suco de laranja dilúído. E água, muita água. Nada mais desce direito ou me apetece. O febrão vai e volta, e me enlouquece.
O mais curioso, porém, é que meu cérebro não desliga de comida. Ontem à noite, menos febril e enjoada, estava lendo o capítulo sobre frango assado do meu livro xodó do momento, que comprei por apenas três libras - !!!! -, e me animei, pensando em tentar assar O frango no domingo, bem tradicionalmente britânico, com todos os acompanhamentos. Dormi bem até as cinco da manhã, quando acordei devido a um pesadelo sobre o quê? Frango assado. Tive de beber muita água para me sentir melhor e sacudir a imagem da ave gordurosa da minha mente.
Não sei se é um vírus estomacal, porque não passo mal de verdade. A náusea é mais imaginária do que real, porque pouco tenho comido. Mas algo me diz que tem a ver sim, com o domingo. Com aquela cumbuquinha de comida do mal. Porque sonho tanto com comida, acho que é o meu corpo dizendo que um agente invasor trouxe esta doença toda.
Enfim, tem sido assim. O meu delírio culinário do dia, hoje, é pensar num cacho de uvas Itália, que batem cartão no supermercado e vêm do Brasil. E esperar que este mal estar me deixe, porque já deu.
Friday, November 20, 2009
Monday, November 16, 2009
Cardápio literário e rosquinhas fritas
Uma das idéias que tive ao começar escrever sobre comida e afins era a de comentar passagens culinárias em livros e filmes. E ainda quero fazer isso porque este não é um blog de receitas, mas sim, um diário sobre o que como, preparo e observo em relação a comida. Portanto, essa era uma das propostas, e hoje abro o Twitter e vejo que alguém a levou a termos mais radicais, e prepara refeições baseadas em pratos mencionados em livros!
A aventura mais recente é justamente sobre o que estou a ler agora, The Year of the Flood, da minha escritora favorita, Margaret Atwood, que ganhei de aniversário de uma das minhas pessoas prediletas, para ficar melhor ainda.
+++

Nos dias cinzentos e úmidos da Paulicéia desvairada, essas rosquinhas eram tão habituées lá em casa quanto os bolinhos de chuva. Acompanhadas invariavelmente de chá mate ou preto.
Como frituras no máximo uma vez ao mês, se como, então permito-me este desvio num dia assim tão outonal. Além do que, elas ficam sequíssimas, com uma textura bem interessante.
Arriscado foi adivinhar as reais medidas, já que minha mãe tinha a mania de escrevê-las simplesmente como "colher", "copo", sem dizer do que - começo pelas proporções menores porque é mais fácil de corrigir. A receita deve dar mais de 20 rosquinhas, fiz apenas metade, aqui coloco a original:
Ingredientes
20 colheres (sobremesa) de farinha de trigo misturadas com 2 colheres (chá) de fermento para bolos
4 colheres (sopa) de manteiga
2 ovos grandes ligeiramente batidos
1 colher (chá) de raspas de limão
4 colheres (sopa) de açúcar (usei o amaburanado, o baunilhado fica como sugestão)
Canela e açúcar para polvilhar
Modo de fazer
Misture a manteiga ao açúcar até obter uma mistura homogênea, mas sem bater muito. Acrescente os ovos e a raspa de limão e incorpore bem. Vá adicionando a farinha aos poucos e comece a trabalhar a massa com as mãos até ficar bem consistente, mais ou menos elástica. Enrole "cobrinhas" (de cerca de 8cm) da massa nas mãos e junte bem (algumas abrem durante a fritura) as extremidades para moldar as roscas. Frite em óleo quente - elas coram bem rápido! -, repouse num prato com papel toalha e polvilhe com açúcar e canela antes de servir.
A aventura mais recente é justamente sobre o que estou a ler agora, The Year of the Flood, da minha escritora favorita, Margaret Atwood, que ganhei de aniversário de uma das minhas pessoas prediletas, para ficar melhor ainda.
+++
Nos dias cinzentos e úmidos da Paulicéia desvairada, essas rosquinhas eram tão habituées lá em casa quanto os bolinhos de chuva. Acompanhadas invariavelmente de chá mate ou preto.
Como frituras no máximo uma vez ao mês, se como, então permito-me este desvio num dia assim tão outonal. Além do que, elas ficam sequíssimas, com uma textura bem interessante.
Arriscado foi adivinhar as reais medidas, já que minha mãe tinha a mania de escrevê-las simplesmente como "colher", "copo", sem dizer do que - começo pelas proporções menores porque é mais fácil de corrigir. A receita deve dar mais de 20 rosquinhas, fiz apenas metade, aqui coloco a original:
Ingredientes
20 colheres (sobremesa) de farinha de trigo misturadas com 2 colheres (chá) de fermento para bolos
4 colheres (sopa) de manteiga
2 ovos grandes ligeiramente batidos
1 colher (chá) de raspas de limão
4 colheres (sopa) de açúcar (usei o amaburanado, o baunilhado fica como sugestão)
Canela e açúcar para polvilhar
Modo de fazer
Misture a manteiga ao açúcar até obter uma mistura homogênea, mas sem bater muito. Acrescente os ovos e a raspa de limão e incorpore bem. Vá adicionando a farinha aos poucos e comece a trabalhar a massa com as mãos até ficar bem consistente, mais ou menos elástica. Enrole "cobrinhas" (de cerca de 8cm) da massa nas mãos e junte bem (algumas abrem durante a fritura) as extremidades para moldar as roscas. Frite em óleo quente - elas coram bem rápido! -, repouse num prato com papel toalha e polvilhe com açúcar e canela antes de servir.
Thursday, November 12, 2009
Entropia
Esta semana recebi cinco notícias completamente inesperadas - três trágicas, duas boas, mas tudo em meio a um clima de enorme indefinição. Ficou no ar, então, aquele questionamento básico do "para onde viemos, por que existimos", e o tempo lá fora não ajuda muito a desanuviar a introspecção e o desânimo forçados.

Então, lá fui eu para a minha minúscula cozinha, tentar sacudir o baixo-astral e movimentar a atmosfera com um pouco de energia produtiva. Mas não correu bem assim.
Andava com desejo de pudim de framboesas. Assim, pensando o tempo todo nisso. Fui ao mercado semana passada e não encontrei as frutinhas, mas não liguei muito, já que não é mais época mesmo. No domingo, porém, fomos a um café mexicano (decente, mas nada digno de uma menção gastronômica) e, no cardápio, a opção "creme brulée de framboesas" reatiçou a minha vontade. Comi menos do que o normal pensando na sobremesa, porque iria ser o ponto alto da noite. Até o momento do pedido: garçom diz, com aquela carinha de "sinto muito", que tinha acabado de servir as quatro últimas. Ele me ofereceu, no entanto, um cheesecake com calda de framboesas, o que quase considerei uma ofensa - não sou fã de cheesecakes e o xis da questão era: pudinzinho, creminho ou nada mais. Voltei para casa com lombrigas.
Nas compras de terça-feira, no entanto, tive a "brilhante" idéia de procurar por framboesas na seção dos congelados. É claro que encontrei, e é claro que comprei. E é claro que pesquisei até encontrar A receita, que me pareceu sem mistérios e hassle-free. Pois é, mas as aparências enganam.
Desde que comecei a fazer experimentos com panna cottas e afins, tudo deu sempre muito certo. Nenhum fator "uau", mas nenhuma grande decepção. Até ontem. Tentei seguir o processo corretamente, mas troquei metade da quantidade das natas por creme fraîche e, após quatro horas na geladeira, nada aconteceu. Nada. O creminho cor-de-rosa estava ali como o havia deixado. Três horas mais tarde da mesma malemolência, dissolvi mais gelatina, numa tentativa desesperada de resgate e, hoje de manhã, a coisa pareceu mais promissora. De novo, as aparências enganaram: assim que desenformei uma das coitadinhas, voltou tudo ao estado cremoso. Ódio. Nem acho que a receita esteja errada, foi algo que penso que fiz direito, mas não fiz - talvez o creme, não sei mesmo, pois já fiz subsaituições até mais ousadas e deram certo.
Mas o ser humano às vezes gosta e tem uma tendência a se auto-sabotar e, porque um fracasso não foi suficiente, tinha de inventar fazer muffins, vejam só, muffins, minha maior fraqueza culinária. Não sei fazer bolinhos e afins, além de não ser uma grande fã dos mesmos, a não ser que sejam quentinhos, saídos do forno, ou consumidos com café. Cupcakes, por exemplo, não me interessam de forma alguma, pois detesto glacês de manteiga e açúcar - coloridos, são ainda piores. E os meus muffins ou ficam pesados, ou as frutinhas vão para o fundo, ou não crescem, ou ficam com gosto de nada. Não tenho mão para isso.
Acho que parte deste bode vem de eu me atrapalhar toda com massas que não sejam muito líquidas - bolos - ou encorpadas - pães, tortas e afins. Massas melequentas causam-me o mais profundo desespero. A pior parte do feitio dos macarons, por exemplo, é colocar a mistura no bico de confeiteiro, tenho de me controlar para não jogar tudo fora, é um momento de pura tensão. E foi o que fiz com a metade da massa dos muffins de limão ontem.
Pois, adoro muffins de limão, são a minha exceção aos dois critérios anteriores. E tinha uns limões pedindo para serem usados, um resto de amêndoas, enfim. A sujeira que fiz na cozinha foi inacreditável, além de quebrar a balancinha (temporariamente) e ver a espátula soltar-se do hand mixer e derrubar um potinho de creme de leite todo no chão, que já tinha sido batizado com algumas framboesas congeladas. Ao colocar a massa nas forminhas, a dita cuja ia envergando o papel e se espalhando por todo lado - foi na terceira vez em que isso aconteceu que parte da massa foi para o lixo, surtei mesmo. Depois de assados, não ficaram lá estas coisas, como era de se esperar: massudos e com gosto de quase nada (depois, fiz um xarope de limão para cobrí-los e deixá-los mais docinhos). É a minha maldição dos bolinhos. Quem os vê até pensa que ficaram bons (comestíveis, ficaram, mas...):

Acho a medida da farinha grande demais e SE tentar fazer a receita de novo, vou dar uma leve reduzida. Mas tenho medo, porque sei que a massa tem de ser assim, o problema é comigo.
Em meio às aventuras culinárias mal sucedidas, o que me salvou hoje foi um prato de arroz basmati e fígados de frango. Sim, fígados, aqueles que quase todo mundo detesta e e eu adoro. Passados na farinha, fritos no azeite e na manteiga, com cebola caramelizada, rioja, tomates frescos, tomilho, pimenta e espinafre. No puro olhômetro, sem medidas, e melhor assim, como às vezes, é.
Então, lá fui eu para a minha minúscula cozinha, tentar sacudir o baixo-astral e movimentar a atmosfera com um pouco de energia produtiva. Mas não correu bem assim.
Andava com desejo de pudim de framboesas. Assim, pensando o tempo todo nisso. Fui ao mercado semana passada e não encontrei as frutinhas, mas não liguei muito, já que não é mais época mesmo. No domingo, porém, fomos a um café mexicano (decente, mas nada digno de uma menção gastronômica) e, no cardápio, a opção "creme brulée de framboesas" reatiçou a minha vontade. Comi menos do que o normal pensando na sobremesa, porque iria ser o ponto alto da noite. Até o momento do pedido: garçom diz, com aquela carinha de "sinto muito", que tinha acabado de servir as quatro últimas. Ele me ofereceu, no entanto, um cheesecake com calda de framboesas, o que quase considerei uma ofensa - não sou fã de cheesecakes e o xis da questão era: pudinzinho, creminho ou nada mais. Voltei para casa com lombrigas.
Nas compras de terça-feira, no entanto, tive a "brilhante" idéia de procurar por framboesas na seção dos congelados. É claro que encontrei, e é claro que comprei. E é claro que pesquisei até encontrar A receita, que me pareceu sem mistérios e hassle-free. Pois é, mas as aparências enganam.
Desde que comecei a fazer experimentos com panna cottas e afins, tudo deu sempre muito certo. Nenhum fator "uau", mas nenhuma grande decepção. Até ontem. Tentei seguir o processo corretamente, mas troquei metade da quantidade das natas por creme fraîche e, após quatro horas na geladeira, nada aconteceu. Nada. O creminho cor-de-rosa estava ali como o havia deixado. Três horas mais tarde da mesma malemolência, dissolvi mais gelatina, numa tentativa desesperada de resgate e, hoje de manhã, a coisa pareceu mais promissora. De novo, as aparências enganaram: assim que desenformei uma das coitadinhas, voltou tudo ao estado cremoso. Ódio. Nem acho que a receita esteja errada, foi algo que penso que fiz direito, mas não fiz - talvez o creme, não sei mesmo, pois já fiz subsaituições até mais ousadas e deram certo.
Mas o ser humano às vezes gosta e tem uma tendência a se auto-sabotar e, porque um fracasso não foi suficiente, tinha de inventar fazer muffins, vejam só, muffins, minha maior fraqueza culinária. Não sei fazer bolinhos e afins, além de não ser uma grande fã dos mesmos, a não ser que sejam quentinhos, saídos do forno, ou consumidos com café. Cupcakes, por exemplo, não me interessam de forma alguma, pois detesto glacês de manteiga e açúcar - coloridos, são ainda piores. E os meus muffins ou ficam pesados, ou as frutinhas vão para o fundo, ou não crescem, ou ficam com gosto de nada. Não tenho mão para isso.
Acho que parte deste bode vem de eu me atrapalhar toda com massas que não sejam muito líquidas - bolos - ou encorpadas - pães, tortas e afins. Massas melequentas causam-me o mais profundo desespero. A pior parte do feitio dos macarons, por exemplo, é colocar a mistura no bico de confeiteiro, tenho de me controlar para não jogar tudo fora, é um momento de pura tensão. E foi o que fiz com a metade da massa dos muffins de limão ontem.
Pois, adoro muffins de limão, são a minha exceção aos dois critérios anteriores. E tinha uns limões pedindo para serem usados, um resto de amêndoas, enfim. A sujeira que fiz na cozinha foi inacreditável, além de quebrar a balancinha (temporariamente) e ver a espátula soltar-se do hand mixer e derrubar um potinho de creme de leite todo no chão, que já tinha sido batizado com algumas framboesas congeladas. Ao colocar a massa nas forminhas, a dita cuja ia envergando o papel e se espalhando por todo lado - foi na terceira vez em que isso aconteceu que parte da massa foi para o lixo, surtei mesmo. Depois de assados, não ficaram lá estas coisas, como era de se esperar: massudos e com gosto de quase nada (depois, fiz um xarope de limão para cobrí-los e deixá-los mais docinhos). É a minha maldição dos bolinhos. Quem os vê até pensa que ficaram bons (comestíveis, ficaram, mas...):
Acho a medida da farinha grande demais e SE tentar fazer a receita de novo, vou dar uma leve reduzida. Mas tenho medo, porque sei que a massa tem de ser assim, o problema é comigo.
Em meio às aventuras culinárias mal sucedidas, o que me salvou hoje foi um prato de arroz basmati e fígados de frango. Sim, fígados, aqueles que quase todo mundo detesta e e eu adoro. Passados na farinha, fritos no azeite e na manteiga, com cebola caramelizada, rioja, tomates frescos, tomilho, pimenta e espinafre. No puro olhômetro, sem medidas, e melhor assim, como às vezes, é.
Wednesday, November 11, 2009
No laboratório
Desde que fui apresentada ao conceito de "gastronomia e culinária molecular", há uns 6 anos, tenho este misto de curiosidade, fascínio e ocasional desinteresse pela coisa toda. Os dois primeiros, pela natureza visionária de novos processos, de ver inúmeras possibilidades onde víamos apenas uma - o desconstruir, reler e recriar. O ocasional desinteresse surge nas minhas fases mais "famintas", em que olhar para porções esdrúxulas e por demais estéticas de comida só me fazem pensar numa coisa: elitismo. E noutra: frescura. Para que brincar com o conceito de pão e apresentá-lo em forma líquida se pão já é iguaria suficiente sendo pão? E por que cobrar mundos e fundos por isso?
Nunca fui a um restaurante de cozinha molecular, pelo simples fato de que quando posso gastar numa refeição mais "especial", prefiro algo na linha banquete, "fartura e qualidade", que satisfaça os sentidos e, claro, o estômago. E tem mais: reservas no El Bulli e no The Fat Duck são para os zen de alma, ou para os metódicos que têm as suas agendas lotadas até 2012 (que alguns dizem será o fim do mundo). Mas a verdade é que se alguém me oferecesse um lugar em qualquer um dos dois, era para ontem que estaria lá. Excitadíssima, de máquina fotográfica em punho, sinestesicamente envolvida com a experiência (não custa sonhar...). É claro que há os mais acessíveis, mas ainda não tive coragem pelo primeiro motivo exposto neste parágrafo.
Confesso que às vezes vou alimentar a alma no site do El Bulli. Uma prática espiritual mesmo, o olhar perdida e extasiada para criações que talvez jamais vá experimentar. O Fat Duck já não me atrai tanto, porque tem no seu menu degustativo duas opções que me causam vertigens nauseantes: mingau de caracóis e sorvete de ovos e bacon. Acho que não preciso explicar muito.
Não sei se é possível comparar os gênios por trás dos dois projetos, mas para mim é assim: Ferran Adrià é Picasso, Heston Blumenthal, Willy Wonka. E quem eu levaria para uma ilha deserta para cozinhar para mim pelo resto da vida? Heston, é claro.
Num nível mais mundano, Jamie Oliver me elucida muito mais quanto a processos e opções. Foi com ele que aprendi a melhor maneira de grelhar postas de peixe, por exemplo. E, ainda que envolva uma grande parcela de promoção pessoal, a campanha que Oliver faz para a reeducação alimentar destes ilhéus, aficcionados por batatas fritas e sanduíches macilentos, é muitíssimo digna. Ele tem, como diz-se no mundo dos negócios, "visão". Não é um chef genial, mas é excelente, apaixonado por gastronomia, e sabe extrair o melhor da simplicidade. Tira suco de pedra.
O que é praticamente o oposto de Heston, por exemplo. O que aprendi com ele? Num nível prático, quase nada. Quantas das suas geniais receitas de cientista maluco serei capaz de reproduzir na minha cozinha minúscula? Pouquíssimas. Quando irei ao Fat Duck? Talvez, nunca.
Mas gosto muito da sua história. Jamie foi criado num pub, desde cedo rodeado por potes e panelas, percorreu um caminho mais previsível. Heston era um vendedor, depois, cobrador (de dívidas), que um dia desfez-se tudo e iniciou um projeto inspirado numa experiência que teve num restaurante provençal, ainda na adolescência. A partir daí, a imaginação virou o limite sem limites. Quando o vejo em ação, a vida parece ter muito mais possibilidades. E tem mais: ele é adepto do slow cooking, que é o tipo de preparação que mais me fascina. Paciência, persistência e o melhor resultado. A sua genialidade é tamanha, que recebeu PhD's honorários de química. Não é para qualquer Ramsay, não.

(direitos de reprodução exclusivos, © Guardian News and Media Limited)
Um exemplo de : "Heston para os simples mortais"; para quem não o conhece, alguns dos seus programas (recomendo a série dos seus banquetes históricos, de dar voltas ao cérebro!) e, claro, a sua história e bibliografia.
Nunca fui a um restaurante de cozinha molecular, pelo simples fato de que quando posso gastar numa refeição mais "especial", prefiro algo na linha banquete, "fartura e qualidade", que satisfaça os sentidos e, claro, o estômago. E tem mais: reservas no El Bulli e no The Fat Duck são para os zen de alma, ou para os metódicos que têm as suas agendas lotadas até 2012 (que alguns dizem será o fim do mundo). Mas a verdade é que se alguém me oferecesse um lugar em qualquer um dos dois, era para ontem que estaria lá. Excitadíssima, de máquina fotográfica em punho, sinestesicamente envolvida com a experiência (não custa sonhar...). É claro que há os mais acessíveis, mas ainda não tive coragem pelo primeiro motivo exposto neste parágrafo.
Confesso que às vezes vou alimentar a alma no site do El Bulli. Uma prática espiritual mesmo, o olhar perdida e extasiada para criações que talvez jamais vá experimentar. O Fat Duck já não me atrai tanto, porque tem no seu menu degustativo duas opções que me causam vertigens nauseantes: mingau de caracóis e sorvete de ovos e bacon. Acho que não preciso explicar muito.
Não sei se é possível comparar os gênios por trás dos dois projetos, mas para mim é assim: Ferran Adrià é Picasso, Heston Blumenthal, Willy Wonka. E quem eu levaria para uma ilha deserta para cozinhar para mim pelo resto da vida? Heston, é claro.
Num nível mais mundano, Jamie Oliver me elucida muito mais quanto a processos e opções. Foi com ele que aprendi a melhor maneira de grelhar postas de peixe, por exemplo. E, ainda que envolva uma grande parcela de promoção pessoal, a campanha que Oliver faz para a reeducação alimentar destes ilhéus, aficcionados por batatas fritas e sanduíches macilentos, é muitíssimo digna. Ele tem, como diz-se no mundo dos negócios, "visão". Não é um chef genial, mas é excelente, apaixonado por gastronomia, e sabe extrair o melhor da simplicidade. Tira suco de pedra.
O que é praticamente o oposto de Heston, por exemplo. O que aprendi com ele? Num nível prático, quase nada. Quantas das suas geniais receitas de cientista maluco serei capaz de reproduzir na minha cozinha minúscula? Pouquíssimas. Quando irei ao Fat Duck? Talvez, nunca.
Mas gosto muito da sua história. Jamie foi criado num pub, desde cedo rodeado por potes e panelas, percorreu um caminho mais previsível. Heston era um vendedor, depois, cobrador (de dívidas), que um dia desfez-se tudo e iniciou um projeto inspirado numa experiência que teve num restaurante provençal, ainda na adolescência. A partir daí, a imaginação virou o limite sem limites. Quando o vejo em ação, a vida parece ter muito mais possibilidades. E tem mais: ele é adepto do slow cooking, que é o tipo de preparação que mais me fascina. Paciência, persistência e o melhor resultado. A sua genialidade é tamanha, que recebeu PhD's honorários de química. Não é para qualquer Ramsay, não.

(direitos de reprodução exclusivos, © Guardian News and Media Limited)
Um exemplo de : "Heston para os simples mortais"; para quem não o conhece, alguns dos seus programas (recomendo a série dos seus banquetes históricos, de dar voltas ao cérebro!) e, claro, a sua história e bibliografia.
Sunday, November 8, 2009
Café-da-manhã
Básico. Brasileiro.
O pão-de-queijo (origem desconhecida, para variar...)
Ingredientes (faço meia-receita, para não me empanturrar...)
1 xícara (chá) de leite
1/2 xícara (chá) de óleo
2 ovos
1 colher (sopa) de farinha de trigo
200g de queijo ralado (fiz meio a meio, parmesão e cheddar light, levemente curado)
2 colheres (chá) de sal
500g de polvilho doce ou azedo (uso o azedo)
Modo de Preparo
Ferva o leite e o óleo numa panela pequena. Quando esfriar um pouco, coloque no liquidificador com a farinha, o queijo e o sal. Pré-aqueça o forno, médio. Bata até misturar tudo muito bem. Numa tigela, acrescente o líquido ao polvilho, misture e depois amasse bem, até obter uma massa uniforme. Faça as bolinhas, disponha-as na assadeira (untada com óleo, se precisar, a minha é anti-aderente) com alguma distância entre elas. Leve ao forno por cerca de meia-hora ou até crescerem e dourarem por cima.
Bolo formigueiro (do caderno de receitas da mãe)
Ingredientes
3 xícaras (chá) de farinha de trigo + 1 colher (sopa) fermento peneirados
1 xícara (chá) de açúcar bem cheia
100g de manteiga ou margarina
4 ovos (claras e gemas separadas)
1 xícara (chá) de leite
Mistura de 3 colheres (sopa) de chocolate granulado e de 3 colheres (sopa) de amêndoas moídas (ou côco ralado)
1 colher de chá de essência de amêndoa ou baunilha (opcional)
Modo de preparo
Misture a manteiga e o açúcar até obter uma mistura bem cremosa. Adicione as gemas, uma a uma, incorporando bem com uma espátula. Num recipiente separado, bata as claras em neve. Misture a farinha e o leite, aos poucos, à mistura das gemas. Acrescente a mistura do chocolate granulado, a essência e as claras, misture bem, despeje numa forma untada com manteiga e farinha e leve ao forno pré-aquecido (médio) por cerca de 40 minutos, ou até dourado.
Tuesday, November 3, 2009
Pois, o tal molho...
... de "pimentos" sugerido no No Soup For You correspondeu às minhas expectativas de pessoa tarada por tudo que leva coentros, alho, tomates e afins. Como pulei o almoço e tinha um pão de campanha para ser torrado, virou o lanchinho da tarde. O feijão marrom está de molho, só não sei ainda se vira sopa ou se uso o molho para temperá-lo e comer com o velho arroz.
Monday, November 2, 2009
Spiralli com azeitonas e fundos de alcachofra
No período final entre uma e outra ida ao supermercado, às vezes sobra pouco que renda uma refeição de verdade (há sempre os ovos e as omeletes que adoro, mas haja saúde coronária!) e semana passada, vi-me nesse impasse. Pois que, eureka, lembrei-me de um livrinho da minha mãe, de receitas de tortas de liquidificador - sim, aquelas das festas juninas e de outros eventos escolares ou lanches da tarde - e folheei-o em busca de uma que levasse os ingredientes que tinha disponíveis. De gourmet, essas tortas não têm nada, mas a grande e irrefutável verdade é que quebram um galho enorme e, pelo menos eu, consigo comê-las por dias a fio, sem enjoar. Frias ou requentadas, com uma saladinha, e pronto: assunto almoço resolvido. Basta guardá-las na geladeira, devidamente embaladas, e podem ser consumidas em até três dias.
Para o recheio da minha, usei atum, alho, azeitonas verdes recheadas com pimentões, tomates frescos e fundos de alcachofra (tinha, no armário, uma lata comprada num momento de vontade impulsiva). Sobraram ainda alguns fundos, que resolvi usar hoje numa massa spiralli improvisada que acabou por ficar deliciosíssima, uma explosão de sabores.
Ingredientes (para 2 pessoas)
250g de massa spiralli (ou fusilli), de preferência, fresca
8 azeitonas verdes ou pretas, sem caroço e picadas grosseiramente
Meia-lata de fundos de alcachofra em conserva (cerca de 6 fundos) bem escorridos, fatiados e cortados em semi-círculos
1 colher de sopa cheia de azeite aromatizado com alho (ou azeite e dois alhos espremidos)
4 (ou 3 grandes) filés de anchovas picados (usei temperados com alho)
1 colher de sopa de molho pesto
Meio limão siciliano (opcional)
Parmesão e pimenta-do-reino a gosto
Modo de preparo
Cozinhe a massa (a fresca, por cerca de 2 minutos) em água fervente, escorra e reserve. Numa frigideira funda, esquente o azeite e acrescente as anchovas, as azeitonas e os fundos de alcachofra - nesta ordem. Refogue ligeiramente até que todos os ingredientes estejam devidamente aquecidos, acrescente a massa e dê uma leve "fritada". Desligue, acrescente a colher de pesto, misture tudo muito bem. Se quiser, esprema um pouco de suco de limão e salpique parmesão e pimenta a gosto.
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